Durante quatro dias o público andou a cirandar literalmente pelos vários palcos do recinto, todos eles chamando a atenção para a importância do seu lado artístico e patrimonial: [Michel] Giacometti, Rosa Ramalho, Zeca Afonso, [Fernando] Lopes-Graça, Amália, António Variações. Um parêntesis para avivar memórias: num país por inventar todos estes vultos das artes seriam estudados nas escolas, pois todos eles continuam a ser referências cimeiras da nossa cultura. Simbolismo? Talvez, mas neste certame construído “graças à vontade, força e resiliência de uma comunidade intergeracional” ficou a convicção que, por aqui, existiu planeamento, organização, escolhas bem sucedidas, seja na banda convidada, no artista vindo de outras geografias e porventura, pouco conhecido do grande público. Os nomes dos palcos é só mais um detalhe.
Para quem veio de Marte e aterrou neste planeta musical, foi muito gratificante ouvir grupos que, a maioria dos forasteiros nunca tinha escutado ao vivo. Quem conhecia as canções interventivas de “Miss Universo”, formada pela dupla Afonso Branco + André Ivo e os temas “Ser Português”, “Canção da Rua” ou “Estamos Entregues aos Bichos”?.
O mesmo se aplica ao compositor, coreógrafo e fadista Jonas/Maçã d’Adão, título do mais recente álbum e cujo projeto, o autor procura “celebrar toda a riqueza cultural presente nas sonoridades do Fado. Numa viagem sonora que navega por entre influências gitanas, ibéricas, mouriscas e afrobrasileiras, entre outras, este é um Fado que nos chega em toda a sua mundividência, um fado que vai beber às suas origens e resgata a dança extinta do Fado Batido”. Antes deste concerto memorável, muitos já tinham partilhado as suas músicas em concertos e na plataforma Spotify, mas nesta edição dos Bons Sons tudo foi diferente e o público prestou-lhe um justo tributo.
De descoberta em descoberta, vou encontrar outra voz incrível Rossana (alter-ego de Inês Barroso), uma cantora e compositora radicada em Londres, com formação clássica em piano e que tem vindo a explorar diferentes géneros musicais que vão desde “o jazz ao psy-rock, passando por influências latinas, do folclore português e até da música eletrónica”. Em 2024, lançou o segundo LP, “À La Portugaise”, marcando um novo capítulo na sua carreira e foi mais uma voz a receber fortes aplausos. Voltaremos a ouvi-la com a banda de Jorge Cruz (outro momento alto do festival, onde faz parte Sónia Sobrado, a “melhor acordeonista do país”), mas como não existe tempo a perder, a multidão já estava à espera de ouvir o violão e a voz de Luca Argel, “o Homem Triste”, cantaautor e escritor carioca, seis álbuns editados, cujas letras são um misto de melancolia e samba, mas também de luta contra a xenofobia e o preconceito contra os imigrantes em Portugal e no Mundo. No seu jeito de cantar, recriou velhos temas de José Mário Branco e Fausto e a assistência que enchia por completo o enorme vale do recinto (2000 pessoas?) retribui-lhe com uma estrondosa salva de palmas, mais ainda, quando na despedida cantou uma composição dedicada ao seu irmão e das suas vidas sentimentais. O tema foi entoado com emoção e ovação contagiante.
Luta Livre pela cidadania
Um dos grandes momentos dos Bons Sons estava reservado para a noite de sábado, com a actuação da banda musical “Luta Livre”, de Luís Varatojo, onde sem rodriguinhos faz a radiografia do país e das mentiras que todos os dias somos confrontados, como “falsificação, fraude, adulteração de factos”. Nas suas composições, Luís Varatojo dá um murro nas nossas consciências adormecidas e provoca-nos a ser cidadãos activos: “procuramos informação e obtemos desinformação; mentiras veiculadas em 30 segundos de vídeo amador ou em exacerbados discursos de grandes empresários e altos responsáveis políticos. Procuramos substância e encontramos artefactos; somos impelidos a consumir depressa, sem pensar, sem questionar, forçados a replicar fórmulas e a seguir modelos numa busca desesperada por validação e sucesso”, escreve na página da Luta Livre.
“Agora tudo é fake, low cost, souvenir, estamos reduzidos à baixa condição de obedecer e servir, à capacidade técnica de imitar. Por vontade própria ou demanda alheia somos, ao mesmo tempo, autores e vítimas da nossa contrafação”, ou seja, o título do terceiro álbum da banda. As suas canções aparentemente simples, são, afinal, o espelho das nossas vidas e tal e qual como num carroucel, umas vezes tristes, outras alegres, mas sempre com vontade de alcançar uma vida digna e com futuro. Ainda se viram punhos no ar a entoar ”O Povo Unido….” mas a noite anunciava mais concertos: a actuação do “Coro Polifónico da Pedreira”, da Sociedade Recreativa e Musical da Pedreira, em Tomar, com temas musicais de cariz popular e arranjos de Lopes-Graça, mais a banda de música portuguesa Lavoisier, composta por Roberto Afonso e Patrícia Relvas.
Entre a noite a madrugada, o programa anuncia a actuação de “Mordo Mia”, uma banda com “músicos de conservatório, autodidactas do YouTube, instrumentistas em bandas covers em restaurantes mexicanos na Rua do Ouro” e õ grupo “Cacique 97”, um colectivo com 20 anos de vida e que reclama o “afrobeat como o seu veículo de intervenção e resistência”.
O último dia foi uma enchente e opções para todos os gostos: música portuguesa através do grupo “Cancioneiro de Benfica”, “Pauliteiras de Miranda”, “Cremalheira do Apocalipse” e ao cair do pano, a conhecida e aclamada Rita Redshoes. O Baile Festeiro juntou milhares, namorados e namoradas, gente jovem e menos jovem, mas todos (as) imbuídas de um sentimento comum: partilhar a boa música portuguesa e deixarem-se embalar por um festival feito com critério, boa música, arte e cultura. Feito à margem dos grandes interesses e patrocínios (por aqui, não existe publicidade às habituais empresas de telecomunicações…) e coisa rara neste tipo de acontecimentos: o festival tem objectivos sociais, apela à cidadania activa e mantém projectos de inserção da comunidade.
Daqui a dois anos, em 2028, outra Festa na Aldeia acontecerá e e outras sonoridades esperam os Bons Sons.
(*) O autor não segue o AO





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